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É possível defender o voto em Lula sem aderir ao programa da frente ampla?

Essa é, sem dúvida, a grande pergunta que ronda a cabeça dos militantes da esquerda socialista que não se renderam ao sistema. Para refletirmos sobre esse tema, é importante partir de uma análise da realidade em que vivemos.

É possível defender o voto em Lula sem aderir ao programa da frente ampla?
Joanna Wiszniewska-Domanska, Um jogador (1998).

A força da ultradireita no mundo e no Brasil

Vivemos um período em que, apesar das importantes lutas de resistência, a correlação de forças políticas não apresenta sinais significativos de mudança. No centro do imperialismo, Trump representa uma ameaça permanente aos povos do mundo. Juntamente com estado genocida de Israel é responsável pelo massacre do povo palestino e pela guerra contra o Irã.

Na América Latina, já demonstrou que não respeita limites para implementar sua nova doutrina. Interveio de forma agressiva na Venezuela, chegando a sequestrar o presidente e a primeira-dama sob a falsa acusação de narcotráfico; negociou a instalação de uma base militar no Paraguai; interfere abertamente nas disputas políticas e eleitorais de diversos países do continente; impõe tarifas comerciais para submeter economicamente outras nações; e classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, o que, na prática, amplia a ameaça de futuras intervenções militares.

No Brasil, a ultradireita consolidou uma importante base de massas. Sua influência se manifesta com força nos debates sobre costumes, nos ataques às liberdades democráticas e na defesa de uma agenda econômica ultraneoliberal, articulando setores da burguesia, da classe média e parcelas expressivas da classe trabalhadora.

O governo Lula e a estratégia permanente de conciliação de classes

Antes de tudo, é preciso compreender que a estratégia de conciliação de classes adotada por Lula e pelo PT não surgiu como uma resposta conjuntural ao neofascismo. Trata-se de uma orientação histórica desses atores políticos. Os governos petistas, embora tenham implementado políticas que melhoraram as condições de vida dos mais pobres, também garantiram níveis inéditos de lucratividade para a grande burguesia brasileira.

Mesmo durante o processo que culminou no impeachment de Dilma Rousseff, o PT manteve a política de ajuste fiscal e não buscou mobilizar a classe trabalhadora para enfrentar a ofensiva da direita. Da mesma forma, os movimentos sociais, salvo raras exceções, permaneceram subordinados à orientação petista, evitando grandes confrontos.

Apesar dos avanços sociais obtidos, isso não foi suficiente para impedir o deslocamento da sociedade para a direita. A classe trabalhadora desejava mudanças mais profundas, e a esquerda institucional não foi capaz de oferecê-las. Nesse cenário, a direita conseguiu apresentar-se como uma alternativa antissistêmica, defendendo propostas radicais de enfrentamento ao establishment.

Embora saibamos que essa narrativa da ultradireita é profundamente enganosa, grande parte da nossa classe não a percebe dessa maneira. Para esses setores, o PT governou por cinco mandatos sem enfrentar o sistema; ao contrário, governou em aliança com ele por meio da política de conciliação de classes.

Hoje, apesar de todas as limitações do seu governo, Lula continua sendo o único nome capaz de derrotar eleitoralmente a ultradireita. Por isso, a maioria da esquerda considera necessário apoiá-lo. Entretanto, voltamos à questão central desta reflexão: é possível apoiar Lula contra a ultradireita sem abrir mão da independência de classe?

Esse dilema acompanha a esquerda socialista brasileira há muitos anos. As respostas mais comuns afirmam que sim. Mas, se isso é tão evidente, por que encontramos tantas dificuldades para colocar essa orientação em prática?

Responder a essa pergunta exige refletir sobre diversos fatores políticos e materiais que acabam influenciando diretamente a atuação das organizações socialistas.

As dificuldades da esquerda socialista

Hoje não existe, em escala internacional, alguma experiência revolucionária capaz de mobilizar amplamente corações e mentes. A restauração capitalista no Leste Europeu e a ausência de referências socialistas vitoriosas exercem enorme influência sobre a consciência das massas, fortalecendo a ideia de que mudanças estruturais seriam impossíveis e de que devemos nos limitar ao que parece viável.

Outro elemento decisivo é o enorme peso político de Lula. Seu prestígio junto aos setores progressistas permanece muito elevado. E é justamente essa base social que a esquerda socialista disputa com o PT. Embora muitos reconheçam os limites da política petista, acabam optando pela conciliação. Isso pode decorrer da falta de confiança em uma alternativa política consistente ou do fato de que boa parte dessa base pertence aos setores médios da sociedade, que, embora também sofram com o capitalismo, possuem mais receio dos riscos envolvidos em processos de radicalização política.

Também não podemos subestimar a influência das igrejas evangélicas sobre amplos setores da classe trabalhadora. Essas instituições exercem forte direção política e ideológica sobre milhões de pessoas, frequentemente empurrando-as para posições conservadoras e para a influência da ultradireita. A religião passa a orientar debates sobre política, costumes, direitos, cultura e comportamento. Tudo tende a ser interpretado segundo os valores definidos pelas lideranças religiosas.

Ao mesmo tempo, a vida cotidiana tornou-se cada vez mais difícil. As pessoas estão cansadas, frustradas e enfrentam enormes dificuldades materiais. Basta frequentar um supermercado ou pagar as contas do mês para perceber a perda constante do poder de compra. As perspectivas de ascensão social praticamente desapareceram. O horizonte passou a ser trabalhar cada vez mais apenas para sobreviver e sustentar a família. Infelizmente, até o momento, a esquerda socialista não conseguiu responder de maneira convincente a esse conjunto aos dilemas da classe trabalhadora.

Além disso, muitas organizações têm enorme dificuldade para compreender essa realidade porque boa parte de seus quadros dirigentes vive em condições muito diferentes daquelas enfrentadas pela maioria dos trabalhadores e trabalhadoras. Grande parte das correntes socialistas encontra-se profundamente adaptada aos aparatos institucionais do Estado. Existem dezenas ou centenas de assessores parlamentares, assessores sindicais, funcionários vinculados a emendas parlamentares e ocupantes de cargos em governos.

Isso significa que muitos militantes — especialmente dirigentes — já não compartilham as mesmas condições de vida da maioria dos trabalhadores. E a consciência política, em grande medida, também é influenciada pelo lugar social que ocupamos. Até mesmo as emendas parlamentares, concebidas historicamente como mecanismos de fortalecimento do fisiologismo, acabaram sendo incorporadas como instrumentos de sustentação política e financeira das organizações. Somam-se a isso o refluxo das lutas sociais e o fortalecimento da ultradireita, fatores objetivos que tornam extremamente desfavorável a atual correlação de forças.

Todos esses elementos repercutem diretamente na localização política das organizações e dificultam a manutenção da independência de classe. A adaptação crescente às instituições do Estado burguês acaba transformando-se, muitas vezes, em mecanismo de sobrevivência política e material de quadros e organizações.

É possível manter a independência de classe?

Diante desse cenário, é possível fazer campanha para Lula e, ao mesmo tempo, preservar a independência de classe? Na minha avaliação, sim. Mas isso exige algumas medidas fundamentais. A primeira delas é possuir um programa próprio, claramente distinto do programa do PT, e fazer dele o eixo permanente da atuação política.

A esquerda socialista não pode abandonar a luta pelo fim do teto de gastos, contra os ajustes fiscais que retiram recursos das áreas sociais, contra os subsídios concedidos à grande burguesia, pela reforma agrária, pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial e por tantas outras reivindicações históricas da classe trabalhadora.

Também é indispensável afirmar permanentemente o socialismo como alternativa histórica ao capitalismo. Ainda que essa perspectiva pareça distante, a disputa ideológica nunca pode ser abandonada.

Devemos defender a soberania nacional, lutar contra todo tipo de exploração, o combate ao racismo, ao machismo e à LGBTfobia, a transição energética e todas as demais bandeiras estratégicas da classe trabalhadora.

Da mesma forma, é fundamental que as organizações socialistas não participem de governos de conciliação nem utilizem emendas parlamentares como forma de profissionalizar a militância. Todo militante deve buscar sua inserção no mercado de trabalho, seja por meios e iniciativas próprias de conseguir um emprego, seja através de um plano coletivo construído pela própria organização. Essa não é uma responsabilidade individual, mas coletiva.

Naturalmente, devemos disputar eleições e buscar eleger parlamentares. No entanto, esses mandatos precisam manter firmeza estratégica e funcionar como instrumentos de apoio às lutas sociais. Um mandato socialista deve servir para fortalecer as mobilizações populares, denunciar o capitalismo e expor os limites do sistema político que o sustenta.

Também é importante adotar mecanismos de renovação das assessorias e das representações parlamentares, formando novas lideranças diretamente ligadas às lutas concretas da classe trabalhadora. Em síntese, precisamos construir mecanismos permanentes que reduzam a influência do Estado burguês sobre as organizações socialistas.

Assim, ao fazermos campanha para Lula, devemos afirmar claramente que estamos juntos na tarefa de derrotar a ultradireita, mas que nosso apoio eleitoral não significa adesão ao programa da frente ampla. Votamos em Lula para impedir a vitória da extrema direita, mas seguimos lutando por um programa próprio, classista e socialista. É justamente esse programa que nos permitirá fortalecer nossa presença nas lutas contra todas as formas de opressão e disputar a consciência da classe trabalhadora em toda a sua diversidade, dialogando tanto com os setores mais organizados quanto com aqueles mais vulnerabilizados.

Pode parecer simples, mas não é. Trata-se de uma batalha política cotidiana, longa e extremamente difícil. Ainda assim, ela é possível. A própria história demonstra isso. Cabe a nós fortalecer nossa atuação, aprofundar nossa inserção na classe trabalhadora e construir, com paciência e firmeza, uma alternativa socialista independente.