Trinta Dias em regressiva de mais uma eleição mais importante do restante de nossas vidas: construir futuro entre o difícil e o pior

Trinta Dias em regressiva de mais uma eleição mais importante do restante de nossas vidas: construir futuro entre o difícil e o pior
Cicero Dias, Sem Título, 1986.

1- Lula segue favorito. Tem uma força ancorada em uma base popular real, um setor de massas resiliente que o acompanha, mas muita dificuldade em passar só com seu próprio apoio dos 50% de votos e precisa da rejeição a Bolsonaro para vencer. Seu governo não significou uma alteração na correlação de forças e não enfraqueceu as estruturas de reprodução do poder político conservador. Também não significou, de outro lado, como sonhariam alguns, uma derrota duradoura da representação popular. Os primeiros dias de campanha confirmam a manutenção da mesma “corda bamba” que se tem perenizado entre a conciliação e a voracidade barbárica. 

2- Bolsonaro Jr. é mais fraco do que se anunciou depois da consolidação de sua candidatura. Não tem atraído apoios claros no “mainstream” do jogo político (centrão e mídia corporativa, por exemplo, não fecharam explicitamente com ele, embora o tratem com uma normalidade que não mereceríamos). O próprio Trump ainda não ofereceu mais do que sinais sutis de apoio direto. Os escândalos o fragilizam relativamente e a base bolsonarista, embora possa ser silenciosamente maior e mais perigosa que o aceitável, está longe de estar em seus dias mais barulhentos e contagiantes. Seus principais sustentáculos nas elites econômicas e na política parecem estar longe de querer fazer tudo o que poderiam por sua eleição.

3- As classes dominantes mudaram pouco de postura em relação a períodos recentes: enquanto sonham com a “terceira via” perfeita em abstrato, preferem Bolsonaro Filho, lamentam seus flancos, pressionam Lula por todos os meios – inclusive por terceiros candidatos – para obter dele o máximo possível, estão coesas no fundamental do programa: manter avanços privatistas e mercantilizantes, a imensa proteção do estado brasileiro e as garantias infinitamente crescentes da financeirização. Não se mostraram, até aqui, sopesando milimetricamente custos e benefícios, dispostas a tudo o que poderiam para fazer valer a vitória de seu preferido, embora lhes saia barato dar alguns empurrões. Bolsonaro não é apenas tentador, é também um instrumento para manter Lula na defensiva e obrigado a negociar (ainda) mais e em piores condições. A posição da Globo e de boa parte da mídia corporativa é um reflexo da posição da classe dominante. 

4- A extrema-direita está avançando na sua normalização. A opção da mídia dominante de tratar uma figura como Renan Santos e seu discurso de extermínio como "propostas" é irresponsável e terá consequências que serão dificuldades acrescidas ao futuro. Caiado, Zema e Cury, cada um a seu modo, incorporam elementos programáticos extremistas que deveriam ser considerados tensionadores do regime constitucional. As tensões em torno da manutenção do registro do candidato do MBL podem dar a ele um caminho de vitimização que lhe tenha utilidade futura. Por enquanto, não houve um “estouro” consistente de nenhuma outra direita além do bolsonarismo, mas é evidente que são “reservas” que interferem tanto no debate atual como no enquadramento do futuro. Essa “extremadireitização” do debate tem como um ingrediente importante a invisibilidade das posições à esquerda do próprio lulismo. 

5- O "partido" Globo-Finanças-Burguesia quer levar a eleição para o segundo turno: Nele esperam obter (ainda) mais compromissos dos candidatos com seu programa e garantir que uma eventual reeleição de Lula se dê nas condições da maior fragilização possível das condições de resistência. Trump tem razões para desejar o mesmo. O segundo turno não é “uma nova eleição”, mas recoloca possibilidades, pressões, alinhamentos e daria grande poder de barganha a todas as forças pseudo-independentes. Para o nosso campo uma vitória em primeiro turno seria menos vulnerabilizante mas, de outra parte, ela não apenas não aparece provável como um erro na mão em seu pedido na reta final pode gerar, como aconteceu em 2022, uma frustração desarmante. 

6- Quando tentamos compreender o que quer a classe dominante não podemos esquecer que esta provou o gosto de obter mais, muito mais, do Estado e das condições que proporciona do que nas décadas do pós-guerra e está indócil com a possibilidade de manter concessões e um ritmo relativamente lento, para seu gosto, de privatizações. É verdade que “modelos” governativos como Trump e Milei ainda não se mostraram estabilizadores de novos padrões de acumulação, mas também é verdade que alargaram os horizontes da expansão do domínio da ordem do capital. É assim que não há enigma na constatação de que o governo Lula não coloca em risco diretamente e a prazo visível as condições de operação do capital e mesmo assim não é apoiado pela classe dominante disputando, no máximo, algum grau incerto de sua complacência. 

7- O "fenômeno" Curi ainda está muito estranho e precisa ser acompanhado e compreendido. A "magia" das redes certamente tem paternidade e patrocínios. Não podemos dormir tranquilos nunca, mas não deixa de revelar alguma fragilidade nas margens do bolsonarismo e do antilulismo a facilidade com que eleitores recorrem a qualquer novidade alternativa. A vulnerabilidade do regime às manipulações das “big techs” é enorme e precisa ser vigiada e combatida com todos os instrumentos. Sem isso, mesmo o que há de fragilmente democrático no regime não se sustenta. Politicamente, é sintoma também da inconsistência do discurso “despolarizante” que ganhou espaço no progressismo, na mídia e no senso comum. O “nem um nem outro” é tão vazio de conteúdo que se mostra disposto a desaguar num encantador de serpentes que, de fundo, é bastante conservador. Pode ser um balão de ensaio que se esvazie, pode virar uma peça do jogo: é preciso aprender com esta cena. 

8- A campanha de Lula ainda é morna. A estrutura da campanha no mundo real é completamente dependente das campanhas parlamentares e estes, por instinto de sobrevivência e conservadorismo, acabam por ser pescadores de aquário, ou seja, os candidatos a deputado de esquerda fazem campanhas em redutos de esquerda disputando os votos uns com os outros. Difícil reverter essa cultura a dias do pleito, mas um apelo do Lula para levar a campanha para onde há indecisões poderia fazer diferença. A própria agenda dele pode fazer diferença saindo dos circuitos mais óbvios e dos grandes espetáculos indo para o diálogo com o campo popular onde for possível obter não apenas mais votos, mas mais entusiasmo. Lula e sua campanha precisam convencer uma parcela dos eleitores de que vale a pena insistir e acreditar que novos avanços virão, ou seja, de que o 4o mandato não será gasto praticamente todo com a “reconstrução” como o atual. Só de gratidão não vai ser possível vencer. 

9- A eleição de Lula, ou seja, os votos que faltam, depende muito da rejeição ao horror que foi e é Bolsonaro do que da repetição das políticas de seus governos que já são sentidas como dados adquiridos pela maioria da população. Lula precisa ser apresentado como a única alternativa disponível à volta de um governo antipopular, oligárquico, violento, entreguista. A componente “Bolsonaro Não” é uma das mais relevantes disponíveis para essa disputa eleitoral e precisa ser explorada por todas as frentes da campanha.

10- A influência dos super ministros do STF e TSE, quase todos conservadores, alguns bolsonaristas, será importante. O deslocamento da dinâmica de defesa do regime para o judiciário, um recurso necessário, útil e um tanto desesperado diante da impossibilidade de conter Bolsonaro e seu golpismo apenas com as forças populares mobilizadas cobra seu preço. Personalidades absolutamente não confiáveis tomarão decisões importantes num cenário de indefinição. Um projeto de democratização do país terá que passar por menor dependência em relação a essas figuras. 

11- Tudo indica a continuidade de um Congresso conservador. As estruturas que o reproduzem só pioraram nos últimos anos e não foram suficientemente combatidas pelo chefe do executivo (que bem apontava em 2022 a urgência de se acabar com o orçamento secreto). Um Lula de liderança e força relativamente pressionados neste quadro eleitoral tem ainda menos margem para puxar votos para a esquerda (coisa que nunca fez de verdade em nenhuma eleição). Em vastos territórios de maioria lulista acordos maios ou menos tácitos permitem a eleição de parlamentares do centrão e até do PL e estes não hesitarão em apoiar golpismos e retrocessos em cada oportunidade. Um cenário razoável - há piores, claro - para 2027 é: Lula eleito com margem reduzida, sem maioria, sem mobilização, sofrendo os preconceitos etaristas aos seus 81 anos, sob crescente pressão dos Estados Unidos, com boa parte da elite política se reposicionando a partir das “expectativas de poder” para o futuro. Cada parlamentar combativo que puder ser eleito importa e cada avanço de consciência e de organização para amanhã importa e muito. 

Este quadro exigirá uma esquerda capaz de se renovar, se enraizar, abrir mão de segurança na reprodução dos seus poucos mandatos e com coragem de se atirar ao mar da travessia necessária. Algumas de suas sementes, quem sabe, estejam nas mais corajosas e consequentes campanhas que, discreta mas persistentemente, resistem por dentro da grande campanha de sobrevivência que é a campanha para reeleger Lula. 

Elídio A. B. Marques é militante do PSOL-RJ e professor da UFRJ.


Elídio Alexandre Marques

Elídio Alexandre Marques é professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É filiado ao PSOL – RJ desde a sua fundação e integrante da corrente Ecossocialistas.