A forma sem crítica: eleitoralismo e a razão particularista
Em seu Homem unidimensional, publicado em 1964 [1], Herbert Marcuse argumenta que, na então sociedade industrial do pós-II guerra, os aparatos tecnológicos tanto da produção quanto da reprodução da vida social haviam conseguido incorporar à ordem as forças sociais antagonistas. Aparentando neutralidade e propugnando o desenvolvimento econômico e técnico como uma panaceia para o bem estar do conjunto dos indivíduos (todos cada vez mais consumidores em uma sociedade de massas), a tal ideologia da “racionalidade tecnológica” lograva êxito em nublar as contradições da realidade sob o capitalismo tardio e obstar qualquer forma de pensamento crítico em relação a ela.
Essa espécie de blindagem quase que apriorística a toda crítica se mostraria, presente, segundo o filósofo alemão, até mesmo no terreno da comunicação, no qual as contradições e a negatividade teriam sido extirpadas em uma “linguagem da administração total”, produzindo o “fechamento do universo da locução”, que teria se tornado imune “à expressão de protesto e recusa” [2]; a linguagem política, por exemplo, se transformava na mesma “da propaganda comercial”, e os símbolos da política já seriam também os “do negócio, do comércio e da diversão” [3].
Escrevendo cerca de vinte anos antes de Marcuse, outro frankfurtiano, Theodor Adorno, já observara como a lógica do que ele chamou de indústria cultural produzia obras nas quais já não mais constavam “uma atitude dura contra a expressão caótica do sofrimento, como verdade negativa” [4]. Moldadas à maneira industrial, tal qual nas fábricas, as mercadorias estéticas não exigiam mais qualquer “esforço” dos seus consumidores, os quais não devem “ter necessidade de nenhum pensamento próprio” posto que aquelas “prescreve[m] toda reação” [5]. A passividade e a aceitação diante do dado, daquilo que é posto, davam o tom dos indivíduos massificados, dos quais era extraído qualquer ímpeto crítico, qualquer oposição ao estado de coisas. Do mesmo modo que a “racionalidade tecnológica” exposta por Marcuse, a lógica (ideológica) da indústria cultural, cada vez mais similar à da publicidade, encontrava-se de tal modo entranhada na subjetividade dos artistas que toda rebeldia criativa, toda autenticidade, era adscrita à ordem antes mesmo de se realizar, de sorte que “quem resiste só pode sobreviver integrando-se”, fazendo com que a “rebeldia realista” se tornasse “a marca registrada de quem tem uma nova ideia a trazer à atividade industrial. A esfera pública da sociedade atual não admite qualquer acusação perceptível em cujo tom os bons entendedores não vislumbrem a proeminência sob cujo signo o revoltado com eles se reconcilia” [6].
Outrossim, os consumidores também seriam subjetivamente vertebrados de forma a procurar justamente aquilo que lhes é oferecido, constituindo o círculo vicioso de um sistema – muito hermético e, portanto, um tanto anti-dialético a nosso ver – cujas engrenagens o reproduziriam diuturna e afirmativamente, oferecendo a todos, portanto, uma “apologia da ordem. Divertir-se significa estar de acordo [...] A impotência é a sua própria base. É na verdade uma fuga, mas não, como afirma, uma fuga da realidade ruim, mas da última ideia de resistência que essa realidade ainda deixa subsistir. A liberação prometida pela diversão é a liberação do pensamento como negação” [7].
Ainda que algumas das reflexões frankfurtianas sejam passíveis de justas críticas, em especial no que tange à certa descrença na capacidade do proletariado em alterar as condições da sua própria dominação, pensamos que elas podem funcionar como subsídios teóricos para análises críticas do tempo presente em seus vários âmbitos, inclusive no que concerne ao caráter da esquerda socialista brasileira.
Revisitando tais reflexões em tempos eleitorais – e quais já não o são? – nos vieram à mente os materiais digitais de pré-campanha de muitas das candidaturas do campo socialista, nos quais não é difícil notar tanto a ausência do termo “socialismo”, como também todo o artefato publicitário presente – até porque são mesmo empresas de publicidade (“marketing político”) que estão encarregadas da sua produção – enviado para o museu da história nossas vetustas críticas aos Dudas Mendonças e Joãos Santanas da vida. Se o conteúdo político, na extensa maioria dos casos, não vai muito além de “defender a democracia, impedir a volta da extrema-direita e ajudar o presidente Lula a governar”, a forma em pouco se diferencia daquela adotada por influencer e celebridades, com suas abobadas dancinhas, trends e descontração estereotipada.
Tacitamente, uma espécie de entretenimento político, um sub-ramo do entretenimento cotidiano alienado, por assim dizer, foi aceito como o terreno político comum, e os eleitores parecem que só podem ser alcançados se o teor do que é dito e proposto for por demais rebaixado, indo ao encontro do que os olhos e ouvidos daqueles querem ver e ouvir. Se outrora caracterizou a esquerda socialista, e mesmo foi um apanágio dela, a perspectiva de uma ação dialética que possa questionar e transformar o que os trabalhadores deveriam querer ver e ouvir dos postulantes a cargos públicos é abandonada como se nunca tivesse existido, tal qual um jovem se desfaz de seus gibis infantis. O resultado aqui, contudo, é a infantilização não só do próprio público a ser atingido, como também dos que pretendem lhes representar. Quando, nesses casos, a sintonia entre ambos é obtida, o que está a ocorrer não é mais do que a falta de sintonia da esquerda socialista com as tarefas políticas que lhe são necessárias caso ela ainda tenha como projeto a emancipação humana.
Deixado para os tais dias de festa – e as festas agora são mais dos candidatos e menos das organizações e coletivos – o socialismo não vem bem a calhar quando os processos eleitorais são aceitos como um mero processo de “competição entre elites políticas”, tal qual prescrito por Schumpeter. Neste “mercado” de escolhas políticas, o eleitor irá fatalmente optar pelo produto do “seu” interesse, e não caberá aos candidatos que queiram ser escolhidos nas prateleiras questionarem, junto aos seus consumidores, as regras e menos ainda as condições de existência do próprio supermercado – o que hoje, aliás, só é feito, de modo prestidigitador, pela extrema-direita. Naturalizando sua condição bem cheirosa de sabão em pó, não poucos dos nossos candidatos socialistas aceitam como horizonte último o caixa do supermercado, e para tal não podem senão se dedicarem a mostrar que são os melhores dentre os demais para fazer com que as roupas voltem às gavetas tão limpinhas quanto a filmagem de seus reels de pré-campanha no Instagram, nos quais a rebeldia e a diversão exprimem a liberdade possível quando a escolha é a da simples adesão (à ordem).
Nesse cenário, o individualismo – ainda que, nos marcos da atual cultura de massas, haja cada vez menos individualidade – parece atingir seu fastígio. Uma parcela não desprezível dos nossos parlamentares e candidatos a parlamentares parece cada vez apostar mais na sua própria imagem, na sua “identidade”, e menos em um programa político propriamente dito. O programa parece justamente não ter programa, de modo que a identificação possa se dar diretamente entre o candidato e as subjetividades cotidianamente programadas para ignorar programas e escolher adorar ou odiar indivíduos como em um programa de reality show. Em uma lógica de crescente estetização, o indivíduo se sobrepõe ao coletivo, e o particularismo, ao universal. Apresentados mais pelo que “são” e menos pelo que propõem acerca das grandes questões nacionais e internacionais (emprego, terra, moradia, violência, fome, opressão, guerras etc.), muitos dos indivíduos candidatos a representantes políticos focam suas candidaturas na defesa de grupos particulares, ignorando e mesmo reforçando as condições de universalidade que caracteriza o proletariado como sujeito social. A busca por representar “na política” o seu grupo particular exige que este politicamente não supere seu próprio particularismo. Nesta derrota de uma práxis crítica, o particular não é mais uma expressão concreta do universal, e sim a afirmação positiva de uma soma de singularidades alienadas. A unidade do diverso é, então, rejeitada em nome de cada uma das diversidades, separadas, coaguladas, cuja junção posterior deve ser feita apenas para atingir o santo graal, mais conhecido como quociente eleitoral.
A substituição crescente da noção de representação pela de representatividade vem acompanhada de uma adesão acrítica e empiricista ao modo de vida e das referências simbólicas, culturais e comunicacionais dos nichos particularistas com os quais o candidato pretende dialogar – de preferência um diálogo sem contradições para não complicar. Representativos da representatividade, muitos dos nossos candidatos já perceberam que a imagem deve substituir a palavra, do mesmo modo que parte da nossa militância socialista vem substituindo a formação pela lacração, o livro pelo tik tok, e a educação pela performance. O sujeito parece dispensar qualquer predicado, e os verbos se bastam. Trata-se de quem pode “entregar” mais, de quem “é” mais. Talvez venha a calhar aqui novamente a analogia – e talvez não seja só uma analogia – com os reality shows que, desde as suas primeiras temporadas (quando ainda não eram chamadas de temporadas e quando estas ainda não se valiam da “ideologia da representatividade”), expõem participantes que, para vencer, peremptoriamente afirmam ao público que mostrarão “lá dentro” o que realmente “são”, ainda que, em sua maioria, não sejam nada, ou quase nada, a não ser o que alienada e ordinariamente são.
Nesse contexto, qualquer conteúdo realmente crítico parece não conseguir se expressar, dado que a forma, com destaque para a linguagem, já lhes são estranhas e mesmo hostis. O universo da locução aparenta realmente ter se fechado. Qualquer crítica mais sistemática está interditada por aqueles que deveriam ser os primeiros críticos ao sistema. Reduzindo o horizonte político àquilo que as pesquisas de opinião apontam, nossos estrategistas eleitorais costumam rejeitar qualquer opinião crítica. Mobilizando um “conjunto de proposições protocolares”, argumentam à maneira de um “profeta irrefutável da ordem existente” [8]: “mas você acha que é isso o que as pessoas querem?!”.
Notas
[1]: Aqui publicada originalmente como MARCUSE. H. Ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.
[2]: Idem, p.97.
[3]: Idem, p. 108.
[4]: ADORNO, T; HORKHEIMER. A dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p.107.
[5]: Idem, p.113.
[6]: Idem, p. 108-109. “Os talentos já pertencem à indústria muito antes de serem apresentados por ela: de outro modo não se integrariam tão fervorosamente” (Idem, p. 101).
[7]: Idem, p.119.
[8]: Idem, p. 122.