Ilusões perdidas: notas de um terrível day after eleitoral

Ilusões perdidas: notas de um terrível day after eleitoral
Vladimir Kush, Corte de sequoia (2003).

Não foi um raio num dia de céu azul, pra lembramos a brumariana metáfora de Marx. Os céus andam carregados faz um tempo e, nesses tempos sombrios que nos foram destinados, viver tem sido muito perigoso, como dizia o sertanejo de Guimarães Rosa.

Os ventos do norte não movem moinhos, é verdade, mas deveriam ensinar alguma coisa com seu sopro que hoje infesta o ar aqui nessa paragem da América do Sul ("eu sei vocês não vão saber..."). Livrando-se de Trump, as massas norte-americanas o fizeram apenas para o alçar ao poder quatro anos depois, e é dificil encontrar razões mais significativas para tal do que a fragilidade política dos democratas sionistas de Biden, mais preocupados em perpertuar os lucros de Wall Street do que em melhorar a vida dos debaixo. Trump se valeu desse hegeliano "momento de verdade" para voltar a reinar sem pejo com suas mentiras, sequestros e guerras genocidas.

Nós da esquerda menosprezamos o exemplo do Norte, assim como o chileno, o argentino e tantos outros em meio a essa Onda Conservadora que já chega a uma década de duração. Não se trata de negar a genialidade política do Lula e menos ainda alguns feitos importantes do seu terceiro governo, absolutamente. Todavia, para quem teve quatro anos à frente do Estado e tomou posse em meio a uma enorme esperança após a hecatombe Bolsonaro (pai), as mudanças realizadas pelo seu governo em nossa desigual formação social foram muito aquém do que se esperava, e ainda muito mais aquém do que se necessitava. Muito.

O argumento de que "não seria possível fazer mais" em função da "correlação de forças desfavorável" tornou-se tautológico e, portanto, autoexplicativo. Ainda que verdadeiro em parte, o argumento, posto em prática, mostrou que até mesmo sua verdade relativa converter-se-ia em falsidade absoluta. "Faremos o que for possível fazer, nos reelegeremos e, assim, gradualmente, iremos fazendo mudanças paulatinas, já que a situação não nos permite fazer mais, sob pena de sermos retirados do poder". Infelizmente, a consciência dos fatos só chega quando da consumação destes, como disse lá um vetusto filósofo alemão. Senão vejamos.

Os acordos com o Centrão e o respeito à austeridade fiscal deixaram o governo amarrado. Do ponto de vista material, concreto, restou a Lula promover algum avanço nas políticas compensatórias e pés de meia da vida. Engessado economicamente pelo arcabouço fiscal (exigido pelo capital) e chantageado politicamente pelo congresso, sobrou ao governo, portanto, entre uma política focalizada e outra, entre um campus de IF aqui e um desenrola acolá, focar na retórica da soberania e na defesa da democracia, infelizmente termos bastante abstratos para as ingentes massas embrutecidas na luta diária pela sobrevivência. Ocorre que esse melhorismo lulista não se mostrou mais suficiente para se obter alguma paz social em meio a um tecido social por demais esgarçado pela precariedade laboral, insegurança material, endividamento, carências múltiplas como em saúde e educação, e sobretudo pela violência nas grandes e médias cidades. E foi nesse terreno putrefato que o bolsonarismo seguiu grassando.

Mas a manutenção, pelo governo, dos eixos da economia neoliberal, responsável pelos efeitos acima, deveria, ao menos, segundo aquele, ter como contrapartida política o apoio das nossas elites ao pacto social lulista em detrimento da opção neofascista. Deveria, mas não teve. A burguesia constrangeu Lula a fazer um governo socialmente morno em troca do seu apoio às instituições democráticas, e eis que agora fica nítido como o grande capital, com a "habilidade dos descarados" de Balzac, não fazia senão trabalhar para reconduzir ao poder aqueles cuja finalidade é justamente a abolição dessas mesmas instituições. "Eu não radicalizo e você não me derruba novamente", parecia ser, portanto, esse o acordo tácito entre o governo petista e as nossas "pessoas da sala de jantar". Mas parecia apenas.

Enquanto o governo cumpria sua parte do acordo, as bancadas jornalísticas dos telejornais também recorriam à retórica da defesa da democracia, mas o faziam a seu modo, claro. Condenava-se a intentona golpista de 8 de janeiro ao passo que se naturalizava como "atores políticos legítimos" da democracia eleitoral as mesmas forças e personagens que tentaram eliminá-la quando derrotados em 2022. Bolsonaro poderia até ser preso em nome da democracia, mas - afirmavam nem tão sub-repticiamente nossos finórios jornalistas globais - seus seguidores, filhos, asseclas, pastores, milicianos e toda essa plêiade de lumpens e arrivistas deveriam ser assimilados pelo "jogo político democrático ", não obstante estivessem todos eles dispostos a eliminá-lo uma vez tendo vencido a próxima partida - quando poderiam, finalmente, substituir nossa atual democracia, por mais restrita e blindada que seja, por sua autocracia fundamentalista, curvando a nação aos seus soberanos do Norte.

Com seus powers points e obsessões por "Lulinha", com seu ódio aos trabalhadores e amor pelas bets, nossos banqueiros, industriais e grades comerciantes estão prestes a recolocar no comando do país os protagonistas de Narcos. E agora, tanto aqueles quanto seus homens e mulheres da grande imprensa o fazem sem que depois possam vir a lançar mão do argumento pretérito, usado após 2018, de que "não sabiam do que eles eram capazes", pois toda a verdade já foi antes revelada, como em Mateus. Eles sabem, mas eles o fazem mesmo assim - e, diferentemente do pedido do filho ao Pai, não poderão ser perdoados. Nunca.

Nossa egrégia classe dominante, com suas elegantes jornalistas e seus cínicos comentaristas, logrou êxito em fazer com que enormes massas empobrecidas votassem ontem contra elas próprias, numa espécie de suicídio social em massa. Lutaremos por cada voto nesse segundo turno, e lutaremos ainda mais depois dele, a despeito do seu resultado. Não tá morto quem peleia, e nós ainda estamos aqui, em nosso nome e dos que vieram antes de nós, assim como dos que nos sucederão, na vida e na luta. Mas hoje tentamos chorar, e não conseguimos. As urnas ontem nos deram espelhos, e vimos um país doente. O que nos resta é lutar para curá-lo.