Em cinco meses, 1.5 milhão de palestinos tiveram que fugir de suas casas, 30 mil foram assassinados, 2.2 milhões estão sitiados. Todos sob risco iminente de morte pela fome e desidratação, além das bombas ininterruptas e da ausência (agora total) de medicamentos e atendimento hospitalar.
Repetimos: há o risco de mais de um milhão de crianças morrerem pela fome. O povo palestino está sendo exterminado em câmera lenta na nossa frente.
A mais de 10 mil km de distância, por aqui, em 23 dias, 33 jovens pretos, pobres e periféricos foram assassinados pela Operação Escudo, na Baixada Santista. Dezenas de famílias tiveram suas casas invadidas, suas vidas ameaçadas e seu cotidiano transformado em terror.
Derrite, o bolsonarista que lutou pelo fim das saidinhas no Congresso, colocou os coroneis da Rota – a polícia que mais mata no Brasil – para comandar com ele os aparelhos da segurança pública de São Paulo… Ele tem um plano de fazer a milícia ganhar terreno às custas do sangue em morros e vielas paulistas. Desde que Tarcísio assumiu o governo do estado, os homicídios cometidos pela Rota aumentaram cinco vezes[1]. A Operação Escudo e a Operação Verão são as operações mais assassinas desde o Massacre do Carandiru, em 1992[2].
E o que os moradores dos morros da Baixada tem a ver com os palestinos?
Muita gente séria já investigou e escreveu sobre isso. Vale a pena fazer uma retrospectiva sobre a presença e influência israelense na América Latina, mas uma daquelas retrospectivas que “a Globo não mostra”[3].
A presença de Israel na América Latina sempre deixou um rastro de sangue e barbaridades. As associações da entidade sionista com os piores grupos da extrema-direita se estendem desde o México até o Chile. Remontam à criação do Estado de Israel e perduram até a atualidade.
Fazem, nestas bandas, o papel sujo que nem os EUA estão dispostos a exercer: treinamento de grupos paramilitares de extrema-direita na Colômbia, operações de contrainsurgência e organização de grupos de extermínio na Argentina, El Salvador, Guatemala e Nicarágua, só para citar alguns exemplos.[4]
Israel é um Estado fundado sobre as vidas de toda uma população palestina originária. Por isso é de se esperar que a sua indústria bélica tenha um papel tão importante. Seus métodos de repressão e brutalidade, seus armamentos, camburões, são todos “testados em campo” e exportados dessa forma, com o selo sionista de qualidade: sangue palestino.
Essa torrente de sangue palestino que abastece sua indústria corre e atravessa o Oceano Atlântico, chegando também aqui, no Brasil. Por aqui, volta a ser derramado, agora pelas mãos dos nossos aparelhos de insegurança pública.
A PM de São Paulo, por exemplo, é uma compradora assídua de equipamentos israelenses. Os “métodos de pacificação urbana” sionistas são replicados nos morros e favelas paulistas. É quase natural: um exército cuja missão é impor o apartheid e o colonialismo na Palestina encontra bons pares entre as polícias brasileiras, cujo objetivo é segregar, reprimir e impor terror nas nossas favelas.
Encontra bons pares, também, entre os espiões modernos, que fazem inveja nos profissionais da arapongagem do nosso antigo SNI. Em toda a tal “Abin paralela” do Bolsonaro vemos as digitais israelenses[5].
E isso porque, no mundo todo, Israel é uma grande amiga da extrema-direita.[6] Chega a ser aloprado, mas o autodenominado “Estado judeu” vive de mãos dadas com gente egressa do nazifascismo europeu. A identidade entre eles é evidente: são racistas, colonialistas e, em última instância, a solução para suas aspirações políticas é o genocídio; sua aspiração final é o extermínio.
Lula não foi o primeiro a reconhecer essas semelhanças e, ao que tudo indica, não será o último. A mídia e os deputados da direita podem esbravejar, bater o pé, mas nada apaga a realidade: Israel comete genocídio contra os Palestinos.
Como diz o pesquisador Norman Finkelstein, filho de judeus vitimados nos campos de concentração nazistas, “se Israel não quer ser comparado aos nazistas, deve parar de se comportar como os nazistas”[7].
É preciso romper relações com o Estado de Israel urgentemente, já passou muito da hora, porque é o dinheiro do povo brasileiro que está sendo usado para comprar do governo e do capital sionistas inteligência e aparatos de guerra para nos exterminar aqui!
O reconhecimento de que Netanyahu orquestra um genocídio para limpar a Faixa de Gaza de vidas palestinas implica necessariamente nesse rompimento diplomático! Mas não é só.
Desde 2019, o capital israelense mantém um escritório lobista em São Paulo para capturar contratos comerciais de exportação de tecnologia de guerra[8]. Tudo facilitado pelas orgânicas relações entre forças de extrema-direita lá e cá.
Devemos batalhar concretamente e fazer campanha pelo fim de todos os acordos comerciais com Israel, sobretudo em relação a empresas bélicas como a Plasan, que exporta os blindados usados nessas operações do terrorismo de Estado em São Paulo e no Rio de Janeiro[9] e a Israel Weapon Industries Ltda (IWI), que fornece carabinas e metralhadoras para a Polícia Militar paulista (em especial para a Rota) e fuzis automáticos e semiautomáticos para a Polícia Militar do Rio de Janeiro[10].
Afirmar que as balas que matam os palestinos em Gaza também exterminam nas favelas brasileiras não é esforço retórico. É a brutalidade real do imperialismo cortando a carne.
Lutar contra o genocídio palestino é lutar contra o genocídio negro aqui, lutar contra o bolsonarismo é lutar contra o sionismo.
E a quebra dessas correntes começa pelo fim de todo e qualquer acordo entre Brasil e Israel assinado à base do sangue que corre em Gaza, na Baixada e em tantas outras quebradas no mundo.
“Mortos pela Rota quase quintuplicam no 1º ano do governo Tarcísio”, disponível em: <https://www.metropoles.com/sao-paulo/mortos-rota-governo-tarcisio>. ↩︎
PM mata 1 a cada 15 h no litoral; ação é a mais letal de SP desde Carandiru, disponível em: <https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/02/22/pm-mata-1-pessoa-a-cada-15-h-em-acao-na-baixada-santista.htm>. ↩︎
Ver o relatório do Movimento BDS América Latina, “El militarismo israelí en América Latina”, disponível em: <https://www.alainet.org/es/articulo/196674?language=es>. ↩︎
“O rasto de terror de Israel na América Latina”, disponível em:
<https://www.aljazeera.com/news/2003/6/5/israels-latin-american-trail-of-terror>. ↩︎“Operação First Mile: Programa espião usado pela Abin deixou expostos dados estratégicos em servidor em Israel”, disponível em: <https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2024/01/25/operacao-first-mile-programa-espiao-usado-pela-abin-deixou-expostos-dados-estrategicos-em-servidor-em-israel.ghtml>. ↩︎
“Uma união improvável: Israel e a extrema-direita europeia”, disponível em:
<https://www.aljazeera.com/opinions/2018/7/17/an-unlikely-union-israel-and-the-european-far-right>. ↩︎“Polícia de Israel inaugura escritório de cooperação em São Paulo”, disponível em: <https://guiame.com.br/gospel/israel/policia-de-israel-inaugura-escritorio-de-cooperacao-em-sao-paulo.html>. ↩︎
“Plasan unveils the Guarder – an armored carrier for SWAT teams”, disponível em: <https://defense-update.com/20141110_guarder.html>. ↩︎
“‘Doria é cúmplice do apartheid palestino’, diz membro do BDS sobre gasto milionário em armas israelenses”, disponível em: <https://ponte.org/doria-e-cumplice-do-apartheid-palestino-diz-membro-do-bds-sobre-gasto-milionario-em-armas-israelenses>.
“Israel e Rio de Janeiro: comércio de tecnologias e produção da morte”, disponível em: <https://dmjracial.com/2022/09/13/israel-e-rio-de-janeiro-comercio-de-tecnologias-e-producao-da-morte>. ↩︎